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Estas reflexões foram elaboradas de forma colaborativa por estudantes antigos em diferentes regiões. Você pode expressar o seu interesse em servir ou sentar cursos inclusivos por meio deste link — as informações de contato serão utilizadas exclusivamente para acompanhamento dentro da comunidade de estudantes.
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Introdução
No espírito do Dhamma, e com profundo respeito pelo inestimável serviço que os centros de Vipassana têm oferecido a incontáveis seres, esta nota nasce de um desejo comum de preservar a essência do ensinamento, permitindo ao mesmo tempo que suas formas acompanhem o fluxo dos tempos.
O mundo atual se move com velocidade, diversidade e interconexão sem precedentes. Muitos praticantes sinceros — de diferentes gerações, identidades e culturas — aproximam-se hoje da prática inseridos em realidades bastante distintas daquelas nas quais nossas estruturas de curso foram originalmente formadas. Isso não diminui o valor da disciplina; pelo contrário, convida-nos a refletir sobre como certas formas — de segregação, comunicação e organização — podem ser ajustadas para servir ainda melhor ao propósito libertador para o qual foram concebidas.
Nossa intenção não é alterar a técnica, mas fortalecer sua acessibilidade, coerência e transparência, para que Vipassana continue a apoiar a libertação interior em um mundo em constante transformação. Assim, honramos a impermanência não apenas na meditação, mas também na evolução natural da própria Saṅgha. Que esta clareza nutra confiança no caminho, aprofunde a gratidão pela oportunidade de servir e aprender, e ajude a garantir que a luz do Dhamma siga brilhando — pura, livre e acessível a todos.
Uma inspiração central para estas reflexões é o reconhecimento da distinção entre a essência dos ensinamentos do Buddha, que deve sempre ser resguardada, e as formas culturais ou contextuais através das quais esses ensinamentos têm sido expressos. Como alguns de nossos professores apontam, o equilíbrio entre regras, realidade e relatividade requer tanto reverência quanto discernimento — preservando o que é atemporal, enquanto permitimos que a forma se adapte naturalmente ao contexto.
Estas propostas foram moldadas em conversas entre antigos estudantes em diferentes regiões e são oferecidas com humildade. Na redação destas linhas, fizemos também uso ético de ferramentas contemporâneas de IA, recorrendo a elas para apoiar a clareza da expressão em inglês — que não é nossa língua principal — enquanto permanecemos enraizados na experiência vivida e guiados pelos valores de transparência, coerência e consciência da impermanência (anicca).
Observamos que uma postura de adesão excessivamente rígida às regras, especialmente quando desvinculada do contexto, pode gerar tensão e formas sutis de desonestidade — para consigo mesmo ou para com a organização — obscurecendo a verdade e dando origem a sofrimento desnecessário. Acreditamos que uma relação mais afinada entre as realidades contemporâneas e o arcabouço da prática de Vipassana pode favorecer maior autenticidade e equilíbrio, beneficiando tanto indivíduos quanto a comunidade mais ampla. Nessa perspectiva, a adaptação não é um afastamento do Dhamma, mas uma expressão dele — um gesto de sabedoria que responde às mudanças.
Os pontos que seguem são oferecidos nesse espírito de investigação e cuidado, como contribuições para uma conversa contínua sobre maneiras de preservar a pureza dos ensinamentos, permitindo que permaneçam vivos, relevantes e acessíveis a todos aqueles que buscam o caminho.
“Uma vez aceita a realidade de que mesmo entre os seres humanos mais próximos infinitas distâncias continuam a existir, um maravilhoso viver lado a lado pode crescer, se eles conseguirem amar a distância entre si, que torna possível a cada um ver o outro inteiro e contra um vasto céu.” — Rainer Maria Rilke
Segregação
Nos retiros de meditação propostos por Goenka assim como nas linhagens relacionadas a U Ba Khin, a segregação entre homens e mulheres nunca foi concebida como dogma, mas como um apoio prático para reduzir distrações e interações sociais, preservando a quietude essencial ao trabalho interior profundo. Esse arranjo se adequava aos contextos birmanês e indiano dos quais surgiu, onde os papéis de gênero e os códigos de recato eram claramente definidos.
Em contextos ocidentais contemporâneos, porém, muitos praticantes sinceros — queer, trans, não binários ou simplesmente oriundos de outras realidades culturais — relatam que a própria divisão binária pode ser um fator de distração ou até alienante. Assim, a estrutura originalmente criada para proteger a equanimidade pode, em alguns casos, gerar o efeito oposto.
Reconhecendo isso, pode ser benéfico que os centros considerem alternar cursos segregados com formatos inclusivos quando possível — especialmente em locais onde as instalações permitem alojamentos individuais ou semiprivados, sempre respeitando a autonomia de cada Saṅgha local. À medida que Vipassana acolhe uma comunidade cada vez mais diversa, surge a oportunidade de alinhar mais profundamente a estrutura física da prática com a universalidade do Dhamma. Nesses cursos, o nobre silêncio, o isolamento e a conduta consciente permanecem intactos, enquanto o espaço é organizado em torno de zonas neutras que acolhem a diversidade sem comprometer a disciplina. E ainda que tais cursos possam oferecer apoio particular a praticantes LGBTQI+ — sobretudo quando realizados com baixa frequência — seu propósito, conforme o entendemos, não é sectário; permanecem abertos a todos, convidando seres humanos a meditarem juntos com sinceridade e respeito.
Uma abordagem significativa é o uso de nomes simbólicos e não generificados para as áreas residenciais. Como experimentado em um curso não segregado realizado na Califórnia anos atrás, substituir as designações “masculina” e “feminina” por nomes neutros inspirados em elementos ou na natureza — como Montanha, Rio, Floresta ou Oceano — pode gerar uma transformação simples e profunda. Tais arranjos espaciais preservam a serenidade enquanto evitam qualquer sugestão de hierarquia ou exclusão. A verdadeira zona livre de distrações não é a separação dos corpos, mas a quietude da mente em equanimidade. A pureza do retiro pode manter-se intacta nesse formato — e talvez até se aprofundar pela inclusão.¹